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Fantasma de Savimbi aterroriza MPLA

Por: Pedro Mufuma

Existem poucas dúvidas de que a néscia política angolana protagonizada, actualmente, por políticos néscios ligados ao partido no poder e que se arrogam o direito de se apresentarem como os únicos representantes do Povo Angolano com o apanágio de usufruírem das riquezas do país começa, aos poucos, a descambar para o lado mais escabroso.

A classe política angolana no poder, e a elite que a sustenta, sempre fez tábua-rasa aos factos históricos que vão acontecendo aqui e acolá, supondo, com presunção, de que as suas opções e métodos de actuação são os mais eficazes, relativamente aos objectivos por si preconizados. No entanto, e aos poucos, as suas pretensões vão-se desmoronando como um baralho de cartas; pior que isso, é a grande incapacidade dessa classe política, adormecida numa pretensa e ainda por analisar “vitória militar,” para aprender algo com a história

É a ausência da referida capacidade que os faz não compreenderem o porquê de certos governos não terem optado pela eliminação física dos seus mais temíveis adversários na arena política e mesmo militar. Podemos, a título de exemplo, citar o caso do governo turco que optou pela captura e posterior prisão de Abdulah Ocalan, líder do PKKK, preso no Quénia; ou de Gusmão, no Chile, preso pelas forças de Fujimori, e, posteriormente, enclausurado numa jaula; ou mais recentemente, na Serra Leoa, as medidas tomadas contra Sankof, líder das Puf.

São estes de entre outros os exemplos, de como certos governos lidam com fenómenos desta índole, por conhecem plenamente o poder de um mártir para catalisar as tendências e aspirações de uma determinada etnia ou grupo social, excluído da vida social e política, e que luta pelos seus direitos.

Daí que todo o indivíduo atento a política angolana não tenha sido apanhado de surpresa, com os mais recentes artigos publicados no Jornal de Angola, em resposta às acções que alguns dos representantes do maior partido da oposição encetaram no sentido de revigorarem a imagem do seu líder, o Dr, Jonas Malheiro Savimbi.
Torna-se claro que a elite no poder, em Angola, apenas agora se apercebeu da sua incúria e da pesada factura a pagar pelo assassinato daquela figura política. Só assim se compreendem os sinais visíveis de pânico por parte do partido no poder sempre que se levante, em Angola, o nome de Jonas Savimbi.
É de recordar que os artigos, a que nos referimos, foram publicados no Jornal de Angola, reflectindo, assim, a posição oficial do governo angolano ou mais concretamente do partido político que o sustenta. Senão vejamos, que outro sentimento se pode depreender dos apelos tão gratuitos como esses, que não sejam pavor e medo pelo fantasma de Jonas Savimbi? O referido artigo apela o seguinte quando se falar, de novo, em Angola, de Savmbi:

(a) “Sair imediatamente à rua, em todos os cantos de Angola, e repudiar quem ousa fazê-lo;

(b) Expressar, de todas as formas possíveis (inclusivé o partir os cornos e o bondar em ou sem kaxexe), os sentimentos de repulsa que nutre contra o assassino-môr e autor da hecatombe que Angola sobretudo estes anos;

(c) Exigir dos gatos sobrantes e autores da promoções savimbenha a reparação imediata e incondicional, com todos os juros de mora, de todos os danos morais e materiais sofridos pelo Estado e por cada família angolense;

d) Tomar a actual campanha como uma afronta, um insulto (tem de ser o último) e exigir que cada um dos que, ao abrigo do Protocolo de entendimento do Lwena, ingressou nas FAA, se retrate publicamente repudiando as gatices em curso, e, mesmo depois disso, sobre cada um deverem ser tomadas, ad aeternum, medidas cautelares, para além de se rever a actual colocação daqueles oficiais generais e superiores que de forma mais bárbara actuaram no teatro de guerra savimbista contra o povo e infra-estrutura...” e outras alíneas que nos escusámos a parafrasear pela linguagem tão vil e desconexa ali utilizada.

Torna-se, assim, evidente que o partido no poder em Angola acha-se cada vez mais assustado, embora queira demonstrar o contrário, com o facto da etnia ovimbundu (maioritária) poder, nas futuras eleições, apostar no partido “in waiting” que é a base social do mesmo. Apenas assim se entendem as insinuações, apelos de morte e de genocídio étnico também dirigidos a organizações ligadas à igreja como o Coiepa, por razões sobejamente conhecidas e que nos escusamos de as referir aqui.

Seria, na verdade, menos deselegante se o partido no poder, em Angola, em vez de agir dessa forma lutasse por governar o País de um modo mais responsável, erradicando definitivamente os seus cleptólogos, reforçar a democracia, deixando de viver no terror do fantasma de Jonas Savimbi e da umbundização do aparelho do estado e da sociedade. Não há afirmações mais gratuitas como a de que essa umbundização poderá desembocar num “Coup d´état ”. São argumentos tendenciosos que apenas visam perpetuar o genocídio étnico dos Ovimbundu.

Pode perguntar-se para que Ovimbundu necessitariam de tal medida se têm o voto como a arma mais apropriada para a alternância ao poder? Para além disso, abona em seu favor o facto de, até ao momento, não ter surgido nessa etnia qualquer partido político, extintas as anedóticas “Tendência de reflexão democrática”, “ Fórum democrático” e “Unita-renovada”, criados pelo partido no poder.

Acrescente-se que o partido no poder quer queira quer não e apesar do ambiente de terror, e violência que vem perpetrando contra os simpatizantes e militantes da Unita, em particular, e os ovimbundu em geral, (Huambo, Lunda-Sul e Kwanza –Sul e Luanda) a alternância ao poder do Mpla é apenas uma questão de tempo.

De acordo com a tradição africana quando se comete um assassinato a melhor forma de se evitar a perseguição da alma penada do defunto é consultar um quimbanda. Consequentemente, melhor figura faria o partido no poder se visitasse um feiticeiro, em vez de procurar motivos para a continuidade de um genocídio, cujas consequências poderão ser desastrosas para o processo de paz e de reconciliação nacional em Angola.

O mais caricato nisso tudo é o facto de o partido no poder, triunfalista, mostrar, pelo teor dos referidos artigos, um medo desmedido relativamente aos que padeciam de “esqueletice, a agonia, a sarna, a cegueira, a desdentição, a desnutrição total, enfim, a agonia, fim-de-vida”, e assustado pelas "saudades" e "feitos valorosos" de um homem que já não está entre nós.

Pelos vistos, o partido no poder em Angola está perante um dilema difícil de contornar: a eliminação física do arqui-rival de José Eduardo dos Santos e a criação de uma Unita dócil não só redundou num fracasso, como também não trouxe a certeza absolute de que se manterá, eternamente, no poder.

Finalmente: se de facto, a única forma que o partido no poder vê para continuar no poder é a violência, nada mais se poderá fazer senão lamentar e lembrar aqui Ayala quando escrevia: “As guerras poderão prolongar-se indefinidamente porque os homens apenas se superam na sua bestialização”.

 

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