A Textualização dos Bailundos (a
partir da obra "Mayombe" de Pepetela)
Por:
Luciana
Ngueve
O
texto pode, ao nível dos estudos literários, ser encarado
como algo relativo à superfície fenomenal de uma determinada
obra literária. O texto assim concebido responde, cabalmente, ao
que postula o princípio da comunicação.É de
referir que dentro da teoria clássica da representação
um texto literário não pode ser analisado fora da sua estrutura
linguística, apresentando-se, assim, como a sua manifestação
discursiva. Consequentemente, e ainda no âmbito da teoria clássica
de representação, o texto teria uma certa relação
com os princípios gerais que sustentam os aspectos organizacionais
do mundo. Daí que, o sentido do discurso literário devia
ser procurado quer no seu suporte ideológico,quer nas possibilidades
de leitura pois, como se sabe, um texto literário tem um carácter
plurissignificativo. Estaríamos aqui, perante aquilo a que Foucault
chamou de episteme,ou seja, um leque de paradigmas organizados à
volta de aspectos simbólicos ligados à cultura e à
ideologia a que a arte de uma determinada época se vincula, ou
seja, a aisthésis duma época da arte.
Contrariamente
a este perspectiva tradicional, o texto é hoje concebido como uma
prática significante cuja razão de ser assenta na génese
do sentido e no sujeito em processo. Daí a aventura do significado
tão bem apontada por Barthes ao invés da usual aventura
dos heróis. Sendo assim, o autor deixa de nos apresentar cenas
imaginadas, mas sim cenas da linguagem,dentro do modelo da nova mimesis.
A partir daqui a obra deixa, pura e simplesmente, de coincidir com o texto,
porquanto a nova forma de existência deste, converte-a numa virtualidade
pura. É o mesmo que dizer que a modernização seria
precisamente isso: a conversão da literatura em texto.Neste sentido,
a obra de Pepetela, Mayombe (2ª edição, Edições
70,Lda., Lisboa, Portugal, em livro de bolso "2K" para a União
dos Escritores Angolanos, 1981) pode, nesta perspectiva e através
de todo um processo de textualização,configurar-se como
um leque de temas metaforizados.
Os níveis
de representação são vários e funcionam como
uma espécie de estratégia através da qual o autor
vai desenvolvendo a sua narrativa. A primeira estratégia cinge-se
ao próprio título da obra, Mayombe, onde podemos visualizar
um desdobramento ou, se melhor o preferirmos, uma descentração
entre o autor e as personagens. Autor entendido no sentido avançado
por Barthes, segundo o qual é um sujeito colocado no meio do texto
onde, num mesmo espaço,vai dialogando com o leitor. Pepetela organiza
o texto em função das vivências dos "guerrilheiros
do Mayombe, que ousaram desafiar os deuses abrindo um caminho na floresta
obscura". Na verdade, e sob as mais variadas formas, as próprias
ilustrações da obra (nas mãos de Henrique Abranches)
reforçam este aspecto representativo do texto. De modo que os personagens
nada mais fazem senão construir uma imagética, tornando-se,
deste modo,a escrita, numa prática significante.Em Mayombe,as motivações
que levavam as pessoas à revolução liderada pelo
MPLA, muito longe de se apresentarem como atitudes políticas ou
sociológicas ascendem a um outro nível de análise,passando
a ser uma representação psicológica, que encobre
motivos de vária índole e muitos dos quais não confessados.
Portanto,
Mayombe ao invés de nos proporcionar um mundo onde as pessoas se
movem por altos ideais, demonstra que os guerrilheiros, já traziam
consigo o "gene" da discórdia, da ambição
pelo poder, da divisão e do caos que viria a ser institucionalizado
no período pós- independência. Na verdade, consciência
política são "palavras fáceis, palavras que,
no fundo,nada diziam", conforme nos revela Teoria nos seus solilóquios
que, ao fim e ao cabo, nos podem mostrar também alguns os valores
e as atitudes do próprio autor, ainda que um personagem não
tem coincidir, necessariamente, com as personagens que cria.É que,
pese embora nos queiramos apegar única e exclusivamente no sentido
que o próprio Texto possui e que se assume, a verdade é
que não se pode dissociar dos símbolos e arquétipos
antropológicos, e mesma da relação homológica
que o texto estabelece com a estrutura social, ou ainda com as leituras
psicanalíticas tradicionais onde se pode descobrir o mito pessoal
do escritor. Tudo porque, Pepetela é um escritor gerado num ambiente
revolucionário tão prenhe de contradicções
e, em parte produto e actor da própria situação revolucionária.
Assim,
a sua escrita assume-se como uma possibilidade de resolver frustrações
que a própria revolução é incapaz de contornar.
Se nos centrarmos neste aspecto podemos,sem grandes dificuldades, verificar
como Pepetela constrói, ao nível ficcional, uma realidade
que o leitor se vê forçado, em certos casos a reagir. É
que, de facto, a realidade representada é um estereótipo
de um projecto de sociedade a que hoje vivemos. Diga-se em abono da verdade
que a semente estava aí lançada. Senão vejamos: os
próprios guerrilheiros dividiam-se em dois grupos: "os kimbundos,
à volta do Chefe de Operações, e o grupo dos outros,
os que não eram kimbundos,os kikongos,umbundos e destribalizados
como o Muatiânvua, filho de pai umbundo e mãe kimbundo.A
partir desta diversidade de jogos de níveis ficcionais, o leitor,
caso seja oriundo do contexto em se gera a própria narrativa, é
levado a eliminar a distância susceptível de existir entre
a escrita artística e a leitura. Assim,apegando-nos na prática
significante da narrativa e, independentemente do carácter polifônico
de um texto literário, sendo,neste caso,um romance,torna-se possível
ler o constante preconceito sobre os Bailundos representado aqui pelo
guerrilheiro Ekuikui.
Ekuikui
ovimbundu, desatento, submisso é um homem fraco de espírito
que se põe a chorar face a um simples problema (roubo de uma nota
de cem escudos que deveria ser entregue ao Comissário). E através
da própria narrativa somos assim transportados a uma representação
ao estilo do "olhar do outro", onde se pretende fazer passar,
deliberadamente, a imagem de um pretenso carácter servilista dos
ovimbundu e o sentimento de se estar sempre "em dívida".
Não é por acaso que na tentativa de se resgatar o companheiro,
Muatinâvua, Ekuikui, por ser ovimbundu, é o primeiro a oferece-se.A
literatura pode permitir visualizar, embora ao nível fictício,
uma sociedade imaginada. Aliás, o escritor pode situar tal sociedade
mais-além, graças ao poder da invenção e de
representação do mundo do futuro. E os próprios capítulos
vão-nos, aos poucos, mostrando tal desígnio, ou seja, a
construção de uma sociedade onde o posicionamento de cada
um é a piori determinado. Na verdade, a própria sequência
dos capítulos onde o aspecto mais marcante é a "omissão"
de Ekuikui é-nos disso revelador. Vejamos a sequência: narrador,
Teoria,mestiço natural da Gabela; narrador, Milagre,natural de
Quibaxe, região kimbundo; narrador Mundo Novo; narrador Muatinavua,
narrador, André; narrador, Chefe do depósito. Que lugar
se reserva a Ekuikui?
Assim,
Mayombe vai mais para além de uma simples representação
das vivências e contradições que se geraram no seio
dos guerrilheiros do Mpla, na frente de Cabinda, (II Região). A
obra ganha mais valor pelo seu carácter representativo,ou seja,
relativamente a um projecto de sociedade onde os mulatos e os kimbundos
se assumem sempre como os líderes e os Bailundos são relegados
a um plano secundário e subserviente, tal como se vê, infelizmente,
na realidade actual. E, perante este quadro perde toda vitalidade a asserção
de Aristóteles,segundo a qual não é oficio do poeta
ou, neste caso,do romancista, "contar as coisas como sucederam, mas
sim com deveriam ou poderiam ter sucedido".
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