Declaração
sobre a paz e reconciliação nacional.
O MPSO,
cujo objectivo fundamental é o de lutar, intransigentemente, contra
todas as formas, que concorram para a extinção, humilhação,
venalidade e submissão dos Ovimbundu, não podia deixar de
estar indiferente ao quadro político e militar em curso em Angola.
Assim, vem, por este meio, declarar o seguinte:
1.
Manifesta o seu regozijo, interesse e satisfação pelas instruções
dadas pelo governo do MPLA, ao Estado-Maior General das Forças
Armadas Angolanas (FAA), para que cessem todos os movimentos ofensivos,
em vigor a partir das 00:00 horas do dia 14 de Março de 2002. Com
esta medida, criar-se-ão condições para a instauração
de condições objectivas, necessárias para a assistência
humanitária de mais de 3 milhões de almas, quer da etnia
Ovimbundu (em maior número), quer das etnias irmãs. Também
se poderá avançar com medidas, que visam reduzir os níveis
de sofrimento dos mutilados, estropiados, órfãos e crianças
de rua, fruto de uma guerra estúpida, cuja desumanidade está
sendo, aos poucos, posta aos olhos do País e do mundo.
2.
O fim do actual conflito e as questões relativas à Paz e
à Reconciliação Nacional, para além de serem
muito sensíveis, são de tal extrema complexidade que exigem
uma grande vontade política das partes envolvidas, transparência,
e a participação de toda a sociedade civil e das forças
vivas da Nação Angolana. Lamentavelmente, o MPLA, sempre
na pele de "árbitro e jogador", está a conduzir
o processo na lógica de "atirar as brasas para a minha sardinha"
para se manter, eternamente, no poder, pois que:
a.
Os encontros entre as chefias militares do Governo e da UNITA, enquadram-se
mais na lógica de discussão de uma capitulação
e não propriamente de negociações com vista a obtenção
de um acordo de paz entre as partes em conflito. Se este facto não
é grave em si, pois a UNITA foi, na verdade, derrotada militarmente,
já o é em termos psicossociológicos, uma vez que
isso poderá criar, nos grupos políticos, sociais e mesmo
étnicos próximos do poder, a ideia de que os Ovimbundu foram
derrotados nesta guerra. E longe de se criar um clima de harmonia, incrementar-se-ão
os rótulos e os preconceitos já existentes à volta
dos Ovimbundu, com consequências nefastas para o processo de harmonização
nacional, pois a arrogância dos vencedores e o espírito de
vingança dos vencidos, conforme nos mostra a história de
vários países, é susceptível de acirrar ódios
que se prolongarão durante séculos;
b.
As questões da Paz e Reconciliação Nacional não
deveriam ser equacionadas, tal como reza a Declaração do
Governo, apenas dentro do quadro jurídico e político em
vigor, da lei constitucional (ainda em discussão), dos acordos
de paz e das resoluções do Conselho de Segurança
das Nações Unidas, mas também pela auscultação
dos interesses da outra parte, sobretudo os relativos à defesa
da integridade física, social e moral dos quadros, militantes,
soldados e populações que, por uma razão ou outra,
estiveram, durante 25 anos, do lado da rebelião armada;
3.
A Declaração do Governo, se bem que seja abrangente e dê
pistas para se chegar a um possível acordo de paz, é insuficiente
para a reconciliação e harmonização da sociedade;
ela omite ingredientes que, ao longo destes anos, serviram de base para
as acções que levaram ao parcial desaparecimento da etnia
Ovimbundu, e mesmo de algumas etnias irmãs, nomeadamente:
a.
O desarmamento, em todas as cidades, dos Grupos de Defesa Popular de carácter
Marxista. O MPSO recorda que os massacres, a usurpação de
bens, as prisões arbitrárias foram, na sua maioria, praticados
por esses grupos, tal como aconteceu com os massacres do Pica-Pau, em
1975; os massacres "cinza no asfalto" ocorridos em quase todas
as cidades do País contra os Ovimbundu, logo após as eleições
de 1992 e, posteriormente, os assassinatos, em massa, na cidade de Luanda,
de populares da nossa etnia irmã (os Bakongos) na tristemente célebre
"Sexta-Feira Sangrenta";
b.
A despartidarização da sociedade e extinção
da polícia de controlo do pensamento (Sinfo), nos organismos estatais
e privados. Uma verdadeira reconciliação e harmonização
nacionais é incompatível com existência de Células
do Partido e da Juventude do Partido em todas as instituições
públicas, assim como com a disseminação, nas mesmas,
de agentes da polícia secreta, que nada mais fazem senão
perseguir e intimidar os quadros e funcionários da etnia Ovimbundu
afectos, ou não, ao MPLA;
c.
A isenção nos meios de comunicação social.
Não basta o Governo do MPLA apelar a todas as forças políticas
e à Sociedade Civil para manterem um elevado sentido de responsabilidade
nos seus actos e palavras,fazendo com que "o debate e a confrontação
de ideias sejam possíveis sem recurso à violência
física ou verbal, ofensa ou calúnia"; é necessário
que o próprio governo do MPLA dê o exemplo, pugnando por
uma comunicação social isenta. Para isso, deverá
suspender, de uma vez por todas, os programas "Nação
Coragem" da TPA (que apenas visa humilhar os milhares -senão
milhões- de Ovimbundu que seguiram o Dr. Jonas Savimbi,chegando
ao cúmulo de os obrigar a maldizê-lo) e o "Hora Certa"
da RNA; este, por ser transmitido apenas numa língua nacional,
o Umbundu, mostra claramente a intenção explícita
do MPLA em envenenar as consciências da nosso grupo étnico;
d.
A reconciliação e o perdão mútuo também
passam e, necessariamente, pela reconciliação com a própria
história, sobretudo quando milhões de indivíduos
se revêem em certos líderes históricos (vivos ou mortos)
. Daí que o Governo do MPLA, quer queira quer não, em vez
de continuar a desrespeitar os costumes ancestrais africanos de lidar
com os defuntos, coscovilhando a vida de alguns deles, deveria, isso sim,
pôr a discussão no Parlamento uma resolução
que vise: (1) redimir a imagem do Dr. Jonas Malheiro Savimbi; (2) realizar
um funeral digno de um combatente contra o colonialismo português;
(3) atribuir o seu nome a algumas artérias das cidades do país;
(4) construir, na capital do país, um monumento em sua memória;
e.
O MPSO não vê qualquer diferença entre o presidente
Dr. António Agostinho Neto (a quem foi construído um mausoléu)
e o Dr. Jonas Malheiro Savimbi, tomando em consideração
o mal que os dois causaram a algumas das etnias do País; mais importante
que isso seria reconhecer os seus méritos de combatentes contra
o colonialismo português. O MPSO sugere que o mesmo procedimento
seja estendido ao Sr. Nito Alves da nossa etnia irmã Kimbundu,
pois o MPLA não poderá viver eternamente à sombra
dos seus fantasmas.
f.
Democratização das mentes dos governadores das províncias.
É, para o MPSO, uma falácia o MPLA propalar os ideais da
democracia, enquanto em todas as províncias do País, a excepção
de Luanda, o mesmo Partido instrui os governadores para serem intolerantes
com outros partidos e sensibilidades políticas; a não se
alterar esta situação, prevêem-se, a curto prazo,
grandes tensões, que poderão perigar o processo de reconciliação
e harmonização nacional e concorrer, de novo, para os massacres
dos Ovimbundu, sobretudo nas províncias mais afectas ao MPLA, em
que a nossa etnia é minoritária.
4.
A paz, reconciliação e harmonização nacional,
não são apenas tarefa do Governo do MPLA, mas também
e, sobretudo, da outra parte do conflito, ou seja, da UNITA. Dependerá
muito da inteligência, união e versatilidade desta força
política a materialização daquele desiderato e a
redução das condições objectivas e subjectivas
que têm dado razões para a extinção dos Ovimbundu.
Assim:
a.
Torna-se necessária uma efectiva união dos actuais líderes
da UNITA de modo a deixarem de dar a triste impressão de terem
entrado em pânico com a morte, há muito previsível,
do seu líder. Isto para além de indiciar a existência
de uma visão política míope, dará forças
ao MPLA para provar que a UNITA, dado o seu carácter marcadamente
rural, não está em condições para lhe alternar
no poder. Os responsáveis e líderes da UNITA poderão
ultrapassar essa situação, pondo acima dos seus interesses
pessoais, os interesses da etnia que lhes serve de base e os da nação
que almejam um dia governar;
b.
O MPSO pede, encarecidamente, aos líderes da UNITA, sobretudo os
que se encontram cá no exterior, para serem comedidos nas suas
declarações, consertando ideais e posições
com os que se encontram no interior, a fim de não porem em risco
os seus companheiros nas conversações, reféns do
MPLA, e as centenas de milhares de Ovimbundu que ainda pululam pelas matas
fora;
c.
A paz e a redução das condições objectivas
do extermínio da etnia Ovimbundu não se compadecem com a
aura de uma sobrevivência mítica do Dr. Jonas Savimbi, que
alguns representantes da UNITA, aqui do exterior, pretendem levantar.
De modo que, torna-se urgente que essas entidades se adaptem às
novas condições político-militares que surgiram logo
após a sua morte. Para o MPSO, é extemporâneo, irrelevante
e muito perigoso para a etnia falar-se do plano do Dr. Savimbi "pós-morte".
Esse plano, na visão do MPSO, acabou com o próprio subscritor
em Lucusse. E embora reconheçamos que custe demasiado aos militantes
e simpatizantes da UNITA a aceitação da morte do seu líder;
mesmo que se valorize o seu projecto de sociedade; mesmo que se recrimine
Sua Excelência sr. Presidente José Eduardo dos Santos por
ter ido tão longe, já que uma captura seria algo mais "soft"
e com menos efeitos "boomerang"; os elementos da UNITA deveriam
reconhecer que a morte do seu líder foi um mal necessário,pois
a ambição desmedida daquele pelo poder, na lógica
do cano da arma, poderia ter consequências ainda mais dramáticas,
que as actuais, para a etnia Ovimbundu e, sobretudo, para os quadros e
líderes desse partido que ainda se encontram nas matas;
d.
A paz, reconciliação e harmonização nacionais
também passam, necessariamente, pela mudança de mentalidades
e pela educação do coração e da mente. O MPSO
tem notado, e com grande preocupação, cá no exterior,
o nascimento de sentimentos de vingança assustadores na lógica
"o dia que tomarmos o poder os crioulos e santomenses vão
pagar o mal que nos fizeram". O MPSO, perante esta situação,
e porque mais tarde ou mais cedo, uma força política de
base étnica Ovimbundu ascenderá, naturalmente, ao poder,
pois o MPLA não vencerá eleições eternamente
(por mais que queira, dada a sua apetência doentia ao poder e a
dilapidação do erário público) pede, encarecidamente,
aos líderes das forças políticas baseadas na etnia
Ovimbundu, aos fazedores da opinião pública, aos líderes
da igreja, para educarem a etnia no respeito, no perdão, e no amor
ao próximo. NÓS, OS OVIMBUNDU, NUNCA SEREMOS OS HUTU DE
ANGOLA.
TUDO
PELA TRIBO,NADA PELAS ARMAS
MPSO,
New Castle, 22 de Março de 2002
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