MPSO - Movimento Pela Sobrevivência dos Ovimbundu
DECLARAÇÃO
Tomando em consideração
os novos contornos do processo político angolano, e o facto de
a Unita estar, inquestionavelmente, associada às razões
que conduziram ao surgimento do MPSO, porquanto o genocídio étnico
a que os Ovimbundu têm sido objecto foi motivado pelo receio, politicamente
justificado, dessa força política chegar ao poder graças
à sua base social, o MPSO não pode ficar indiferente ao
novo quadro político angolano, sobretudo na véspera da realização
do IX Congresso da Unita a realizar-se nos dias 24 a 27 de Julho; de modo
que vem declarar o seguinte:
1. O MPSO, cujos objectivos
são os de lutar, intransigentemente, pela integridade física,
cultural e social dos ovimbundu, considera o ambiente de paz reinante
em Angola como uma grande vitória, que deveria ser preservada a
todo o custo; não obstante isso, não deixa de manifestar
o seu desagrado pelo processo de reinserção dos desmobilizados
das FMU e seus dependentes; escusado será referir que, em certos
casos, o Ministério de Reinserção Social, deu mostras
de pretender o extermínio dessa franja populacional que só
não sucumbiu, na totalidade, nos “Campos da Morte”,
graças a sua capacidade de resistência e espírito
de iniciativa;
2. Durante os longos
anos do conflito que abalou o país, os angolanos e a comunidade
internacional, “aprenderam” a tragar a ideia de que as dificuldades
que o país vivia eram, na maior parte dos casos, derivadas do factor
guerra; dificuldades que iam desde a instauração de uma
democracia e de um Estado de Direito, aos problemas de índole económica
e social; no entanto, passado um ano, constata-se que, em Angola, não
só houve um agravamento das muitas situações vividas
no período de guerra, como também se pôs de manifesto
a incompetência da élite no poder em governar o País,
associada ao pânico derivado da perda do controlo da sociedade;
só assim se explica o facto de se manterem as situações
seguintes, nomeadamente:
a) Partidarização
das instituições, consubstanciada na existência e
permanência dos agentes do SINFO (polícia secreta), das Células
e Núcelos da Juventude do Partido nas escolas, universidade, ministérios,
etc., e a mobilização forçada dos funcionários
para o MPLA, com o risco de perderem o emprego, caso se recusem a tal
o que é, sem dúvida alguma, o facto mais evidente de que
estamos perante uma ditadura, e muito longe de um Estado que se diz Democrático
e de Direito;
b) Falta de isenção
nos meios de comunicação social estatal (televisão,
rádio e imprensa escrita) e a adopção de linhas editoriais,
sobretudo no Jornal de Angola, que atentam contra o processo de Paz e
Reconciliação Nacional e que concorrem para o acirrar de
ódios contra os ovimbundu, através do que essa imprensa,
afecta ao partido no poder, denomina de “umbundização”
do aparelho do estado e da sociedade;
c) Falta de transparência
no processo de desarmamento da população civil a nível
nacional, e acções no sentido de tornar a famigerada polícia
de emergência, tristemente conhecida por “Ninjas”, cada
vez mais aguerrida, numa fase em que isso não só já
não se justifica, como também não se compreende o
porquê de tais acções;
d) Indiferença
do poder judicial, relativamente aos escândalos de corrupção
que proliferam por todo o lado e a cada momento, envolvendo, inclusivamente,
figuras como a da sua Excelência, o Sr. Presidente da República,
e às atitudes de intolerância política que se vão
verificando, sobretudo nas províncias, contra qualquer força
política;
e) Remissão
ao ostracismo das províncias do Centro de Angola onde o cenário
de pobreza e exclusão social atinge proporções alarmantes,
o que acrescido a inexistência do papel do Estado nessas zonas,
faz pensar numa punição daqueles que durante vários
anos quiseram permanecer do outro “lado da barricada”.
3. Um dos fenómenos
que se vem verificando em Angola, logo após a instauração
da democracia multipartidária, é a proliferação
de partidos, muitos dos quais criados a mando não se sabe de quem,
mas cujos objectivos são mais que claros: sair em defesa da élite
no poder que pretende manter-se nele por tempo indeterminado. É
nesta linha de ideias que o MPSO nota, com grande satisfação,
o não surgimento, até ao momento, de qualquer força
política de base étnica ovimbundu. Isso é, para nós,
o sinal mais claro de que essa comunidade continua ainda a rever-se, pese
embora os inqualificáveis e injustificáveis erros, na força
política que surgiu no seu seio.
4. Desde o cessar fogo
ocorrido há um ano, no Luena, até ao presente momento, o
país entrou num grande marasmo político onde a Unita, como
o maior partido da oposição, se absteve de exercer o seu
papel de controlo do governo no poder. De modo que, não se pode
deixar de louvar os partidos, organizações não governamentais
e pessoas singulares que, de um modo exemplar, souberam ocupar o vazio
deixado por àquele partido; daí o nosso reconhecimento ao
elevado grau de consciência política e coragem dessas instituições
e entidades. Referimo-nos, em particular, ao Padepa, Open Society ao Coeipa
e aos seus líderes.
5. O processo de reconciliação
nacional é, por si mesmo complexo, e exige medidas práticas,
capazes de sossegar as vítimas. Nesse sentido, é de louvar
as iniciativas dos sobreviventes do 27 de Maio que se batem pela justiça
e pelo esclarecimento da situação que levou a morte milhares
de seus camaradas.
6. O MPSO não
pode deixar de manifestar preocupação face aos rumores sobre
a existência da corrupção no seio da Unita, “o
party in waiting” que é, neste momento, uma das esperanças
dos angolanos, assim como da existência de acordos secretos com
o Partido no Poder para uma eventual partilha no poder o que, diga-se,
em abono da verdade, seria uma forma pouco digna de honrar o legado político
e histórico do fundador do Partido, o Dr. Jonas Malheiro Savimbi.
Consequentemente, os congressistas deverão eleger para futuro presidente
da Unita, em consciência e liberdade, aquele que mostra ser capaz
de romper, definitivamente, com o Mpla e de proclamar ao mundo o fim do
Gurn. Torna-se óbvio que, com o fim da guerra, já nada justifica
a existência do Governo de Unidade e Reconciliação
Nacional, apresentando-se apenas como uma estratégia do Partido
no Poder para, quando das eleições, justificar-se perante
os eleitores de que “não roubou”, e nem “desgovernou”
o País sozinho.
7. Nos dias que correm,
torna-se cada vez mais claro que apenas um partido que se rege por princípios
democráticos é capaz de os estender a toda a sociedade.
Assim, não se pode deixar de reconhecer a capacidade e o mérito
da Unita ao implementar medidas democráticas, de facto, na forma
como pretende eleger o seu Presidente, numa altura em que o Mpla, sempre
anacrónico e apegado a princípios estalinistas, ainda discute
sobre a viabilidade ou não de se manter o centralismo democrático.
8. Por último,
o MPSO exorta os congressistas da Unita para, em momento algum, se desviarem
do grande objectivo a alcançar no presente momento histórico:
tomar o poder pela via das urnas, substituindo o governo incapaz, anacrónico
e corrupto do Mpla que, por tudo isso, perdeu a legitimidade de ficar
em frente dos desígnios da nação; pelo que, a discussão
das “questões internas” e dos “erros do passado”
não deveria ser feita antes de cumprido tão sublime objectivo.
Tudo pelo tribo, nada
pelas armas
Scotland, 18 de Junho
de 2003
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