Há várias formas de se fazer Guerra.

Passados mais de um quarto de século, a frase mais comum utilizada e ouvida entre os que detém o poder em Angola, é que não era possível fazer-se isto ou aquilo por causa da guerra. Desde 1975 até 1989, esta explanação dada por fazer-se pouco ou nada para a população, especialmente àquelas que vivem no interior, era devido a presença dos Sul Africanos no País. Desde 1989 esse motivo passou a ser Savimbi. Em ambos os casos, a premissa básica tem sido de que não era possível equipar-se as Forças Armadas e implementar políticas sociais ao mesmo tempo. Mais precisamente, que a única forma de se fazer a guerra era com soldados que tenham o equipamento mais sofisticado disponível do mundo actual.

O tema que gostaria de abordar hoje, é que há formas de fazer guerra. Há um ditado nos Estados Unidos que diz que existe uma luta endémica entre as armas e a manteiga, ou, talvez melhor dizendo em Português, entre as armas e a comida. Um país é tanto mais forte, quando investe a maior parte do seu dinheiro nas forças armadas ou no bem estar da sua população? Òbviamente ambos os casos são necessários. Mas aqui em Angola, como sugeri na minha introdução, a questão é usualmente vista como mutuamente exclusiva: ou as armas ou a comida. Um dos resultados óbvios da política do governo em se concentrar quase que exclusivamente na aquisição de armas, é o seu distanciamento a todos os níveis com a sociedade. Essa distancia transformou-se em terreno fértil a favor do inimigo, especialmente nas zonas rurais.

Uma pergunta que me fazem mais frequentemente, é. Como é possível que Jonas Savimbi tenha passado a maior parte dos últimos 26 anos, movendo-se fàcilmente no interior de Angola, sem que alguma vez tenha sido denunciado pela população civil. O medo é certamente um factor importante; mas também, senão muito importante é o facto de que a população rural ver pouca diferença entre a Unita e o Governo. Em todo caso, Jonas Savimbi já não goza o apoio popular que antes detinha, nem o governo é visto como um amigo ou um suporte que forneça alimentação, emprego, esperança ou expectativa para um futuro risonho. Esta situação não será alterada, a menos que mudanças substanciais sejam feitas dentro da política do governo.

Os que detêm o poder optaram por uma escolha clara, quando preferem as armas em vez de alimentos. Mas é legitimo questionar que tipo de armas estão sendo adquiridas, ou se elas são apropriadas para o tipo de guerra de guerrilha que se assiste hoje. Por exemplo os que estão no poder, adquiriram recentemente um tipo de armamento que inclui aviação, sofisticado sistema de artilharia e tanques dos mais modernos em toda África. Fui informado que isso custou centenas de milhões de dólares. Surpreendentemente, o equipamento adquirido não foi utilizado contra Savimbi, ou não pode ser utilizado, por ser inadequado ao tipo de guerrilha em curso e que se pratica hoje.

Por exemplo, imaginem o impacto potencial que o Governo ganharia, se em vez de gastar acima de duzentos milhões de dólares em ultra sofisticado sistema de artilharia e tanques inúteis para essa guerra de guerrilha, o dinheiro fosse atribuído a uma fundo para a paz e reconciliação, numa proporção de 10 ou 20 vezes. Ou melhor ainda, imaginem que este fundo para a paz e reconciliação, fosse utilizado para mais do que atrair desertores e apoiantes de Savimbi, ou fossem em vez disso empregues para melhorar as vidas daqueles que vivem no interior onde Savimbi se movimenta a fim de lhes proporcionar razões concretas para apoio ao Governo e rejeitarem Savimbi. Há de certeza formas diversas de se fazer guerra.

No meu campo de actividade profissional que são as Relações Internacionais, o famoso escritor Clauseawitz, escreveu certa vez que "guerra é política, feita por outros meios". Se isso é verdade, e acredito que é, então isso no mínimo sugere ou recomenda que o Governo, deve optar por um caminho mais inteligente à política desta guerra. Se alguém duvida da verdade desta afirmação aconselho somente olhar a experiência da França, dos Estados Unidos e Vietnam, dos Soviéticos e no Afeganistão, dos Ingleses na Malásia, da França na Argélia e dos Portugueses em Angola, Moçambique e Guine-Bissau. Em cada caso esses países desenvolvidos convenceram-se que a superioridade das suas armas e conhecimento tecnológico eram suficientes para ganhar a guerra de guerrilha. Mas afinal todos eles se enganaram. Estavam completamente errados.

Um dos grandes arquitectos da guerra do Vietnam foi Robert McNamara, que foi Ministro da Defesa de 1961-1968 e mais tarde Presidente do Banco Mundial durante 10 anos. Num livro publicado anos atrás sobre lições da guerra no Vietnam, MacNamara escreveu que um dos grandes erros cometidos pelos EU no Vietnam foi o de sobrestimar a superioridade do armamento e subestimar a importância da conquista dos corações e das mentes da população. Existem nestas declarações lições importantes para Angola.

Anteriormente tinha incluído Portugal, entre as nações que haviam falhado em não compreender as limitações da superioridade das armas, e a falha de não ter ganho os corações e as mentes das populações. Contudo um general Português aponta-se como uma excepção- António Spínola. Enquanto que esse general é lembrado hoje principalmente pelo seu papel no 25 de Abril de 1974, é importante estudar-se o sucesso que conseguiu na luta contra o PAIGC na Guine-Bissau, no inicio dos anos 70. Ele de forma invulgar, compreendeu a importância da "conquista dos corações e das mentes das populações do interior". Sua estratégia deve ser estudada e aplicada por aqueles que hoje detêm o poder em Angola.

Se aceitarmos a premissa de que a coisa mais importante que qualquer Governo deve fazer enfrentado com uma guerrilha, é ganhar os corações e as mentes das populações então, toda atenção deve ser dirigida imediatamente na questão da boa governação. Não é necessário que alguém seja um cientista em foguetes, para compreender que não há absolutamente nenhuma esperança para se atingir esse objectivo, quando alguns governadores em províncias chaves no interior são vistas pelas suas populações como "inimigos" por se transformarem em homens ricos às expensas daqueles que supostamente devem proteger. Esta não é de certeza uma forma de se acabar com a guerra.

Quando membros da sociedade civil de Angola lançam ataques contra corrupção, os porta vozes governamentais exigem provas. Quando essas provas são apresentadas o que se segue como reacção é o silencio. A única conclusão a que alguém pode chegar é que a amizade com os que estão no poder ou a fidelidade àqueles que tiveram algum protagonismo na luta antes da independência , é mais importante do que a sua contribuição à guerra contra Savimbi. A verdade é que esses governadores corruptos, são as armas mais importantes que Savimbi tem hoje. São infinitamente mais importantes para ele como um meio de defesa, do que centenas de milhões de dólares de armas sofisticadas que os que detêm o poder compram para derrubá-lo. Se os que detêm o poder não conseguem reconhecer essa verdade então só podemos concluir que não são sérios no seu afã de se acabar com a guerra.

Há muitas maneiras de se acabar com a guerra e várias formas de se terminar com ela. Muitos angolanos pertencentes a sociedade civil estão convencidos que a solução é declarar-se um cessar fogo unilateral ou entrar em negociações imediatas com Savimbi. Neste ponto eu acredito que aqueles que mantém estas posições são tão irrealistas, quanto aqueles que controlam o poder neste país e que acreditam que as armas sofisticadas são a resposta para o fim da guerra.

É absolutamente necessário reconhecer o objectivo do adversário. Em 1961 quando Savimbi se encontrou o conselho dos Estados Unidos em Berna, Suíça - e anunciou que seria o 1ª Presidente de uma Angola independente, até hoje 4 décadas mais tarde, seu objectivo é governar Angola. Sua atitude em relação a Bicesse e Lusaka são suficientemente evidentes para se compreender que suas ambições pessoais são mais importantes do que a paz em Angola. Se subsistem ainda algumas duvidas a respeito dos seus objectivos, basta alguém ver os filmes que mostram os discursos às suas tropas encontradas no Andulo quando as FAA capturaram o seu quartel general.

Nesses filmes Savimbi foi claro: "paz não é poder, nós não estamos interessados em paz mas somente no poder". Aqueles que advogam ou defendem negociações com Savimbi, tem a responsabilidade de explicar como é possível negociar com alguém cujo o principal objectivo é o poder. Como é que alguém negoceia um poder comprometido. Ninguém deseja o fim desta guerra mas do que eu, mas devemos ser realistas. Alguém realmente negoceia o fim da guerra com um adversário, cujo o objectivo depois de 4 décadas tem sido governar Angola?

Como muitos angolanos reconheceram a guerra termina com uma vitória militar ou rendição. Portanto, encontramo-nos diante de um grande e preocupante dilema: se não se acaba a guerra através de uma vitória militar ou negociações, como é que ela acabará? Haverá uma 3ª via ? Infelizmente não há solução ou alternativa mágica. Não há nenhuma solução simples. Ela pelo contrario envolve uma series de soluções - ou uma simbiose de eficácia política, social, económica e acções militares.

Por exemplo é necessário aproveitar os momentos chaves durante a guerra para magnânimamente fazer paz. Um momento chave foi a conquista do Andulo e Bailundo, quando a Unita se encontrava em total debandada. Se aqueles que detêm o poder não descortinaram isso como uma oportunidade de ouro para fazer a paz, então deveriam explicar qual é a estratégia que pretendem para fazer a paz. A única estratégia que ouvimos falar é a de que pretendem eliminar Savimbi. Acredito que isso traria paz " mas não necessariamente prosperidade". Contudo porque que haveríamos de acreditar que seriam capazes de realizar isso quando são os mesmos que continuam alienar a mesma população no interior, que os conduziriam a capturar Savimbi? Aqueles que detêm o poder nunca verão Savimbi com um equipamento inútil de centenas de milhões de dólares. Pelo contrario, vê-lo-ão com ajuda da população que pede pouco mas recebe nada.

Durante a guerra americana no Vietname um dos 1º Senadores que se insurgiu contra a guerra foi William Fulbight do estado de Arkansas - o mesmo Estado onde Bill Clinton foi governador. Foi o Senador Fulbight que lançou a frase " arrogância do poder para explicar o fenómeno daqueles com o poder em Washington, optimistas quanto ao sucesso da guerra quando de facto sofriam pesadas derrotas. Para o Senador Fulbight, essa arrogância cegava os que detinham o poder da realidade, tanto no Vietname como nos Estados Unidos. Se o Senador Fulbright estive-se ainda vivo, certamente aplicaria esta frase aos que detêm o poder em Angola. Foi a arrogância que levou os que detêm o poder a acreditar que a UNITA seria derrotada em poucos semanas ou meses depois de Andulo. Foi a arrogância que levou aos que detêm o poder a preverem com segurança que a sua candidata seria eleita Chefe da S.A.D.C. E foi ainda a arrogância que levou os que detêm o poder, e com o recente apoio dos P.A.L.O.P a acreditar que Angola ganharia um assento no Conselho de Segurança em 2003. Este é um sonho impossível, a menos que se efectuam mudanças internas ou até que haja sérios, e não retóricos ataques a corrupção. A verdade é que a poucos países que desejam ver seus nomes associados intimamente com Angola, e creio mesmo que os que detêm o poder reconhecem isto.

Recentemente viajei no interior de Cabinda e à sul de Luanda onde passei por algumas aldeias hasteando a bandeira de Angola. A maior parte das bandeiras estavam tão esfarrapadas que era impossível indentificá-las como bandeiras da República de Angola. Ocorreu-me quer as bandeiras eram uma metáfora interessante à realidade dos que hoje detêm o poder. Foi decidido que deveria haver uma bandeira nova. Fez-se um concurso, seleccionou-se o ganhador mas nenhuma bandeira nova foi apresentada. Os que detêm o poder continuam a fazer promessas de reformas de acabarem com a corrupção, de desenvolverem o interior e terminarem com a guerra, mas até aqui, tal como a nova bandeira do concurso não se vê nenhuma transparência. Talvez a arrogância convenceu aos que detêm o poder que as promessas são suficientes e que a transparência não seja necessária.

Há muitas formas de se acabar com a guerra. Mas não haverá vitória a menos que aqueles que detêm o poder reconheçam que o mais importante é investir no seu próprio povo. Porque é o povo de Angola e não os que detêm o poder que sofrem todos os dias. Sem o apoio do povo não haverá esperança para a vitória final.

Dr Jerry Bender

 

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