Conseguirá Eduardo dos Santos sobreviver?
Terá sido
possivelmente o homem mais extraordinário que passou por Angola
- e o pior. Foi, como um ciclone, admirável e pavoroso. Jonas Malheiro
Savimbi viveu com fúria; teria de morrer com fragor. Cumpriu-se,
afinal, um velho provérbio ovimbundo: faca de guerra, morre na
guerra. O filho do velho Lote, um humilde funcionário dos Caminhos
de Ferro de Benguela, poderia ter utilizado a incrível energia
com que atravessou o seu tempo - uma força quase mágica,
que emanava dele como uma luz, e impressionava quem quer que se aproximasse
- para se transformar num segundo Nelson Mandela. Preferiu ser Átila.
O desaparecimento
de Jonas Savimbi assinala, sem qualquer dúvida, uma nova era. Em
primeiro lugar o fim da guerra mais longa do nosso tempo. Não é
provável que os generais sobreviventes, entre aqueles que continuam
nas matas, prossigam sozinhos o esforço inglório de um combate
que, no fundo, apenas servia, nestes últimos anos, os interesses
dos sectores mais retrógrados do regime. Muitos deles hão
de respirar de alívio. Uns poucos generais das tropas do governo,
pelo contrário, talvez lamentem tal desfecho: há negócios
que só prosperam em tempo de guerra. O governo angolano vai ter
muitas dificuldades, a partir de agora, para justificar a má gestão
do país, a corrupção endémica, a ausência
de democracia. Jonas Savimbi tinha as costas largas. Tudo de mal que acontecia
em Angola, das multidões ululantes de mutilados aos cortes de água,
passando pelos surtos de paludismo, lhe podia ser atribuído. E
a quem protestasse era fácil colar um rótulo. Um rótulo
terrível - savimbista.
Os próximos
dias vão ser perigosos. Por um lado existe o risco, ainda que muito
remoto, de uma explosão em Luanda, de júbilo ou de ira,
ou de ambas as coisas, pois que tendo a UNITA deixado de ser uma ameaça
não é de todo improvável que a massa de desesperados
que se acumulam na capital de Angola se volte contra os seus senhores.
Por outro lado os grupos dos guerrilheiros do galo negro dispersos pelo
país, agora sem cabeça - ou seja, de cabeça perdida
- poderão tentar acções suicidas mais ou menos espectaculares.
Passada essa
fase importa saber quem dentro da UNITA continuará o movimento.
Um movimento, acrescente-se, historicamente importante, que representou,
e continua a representar uma revolta dos povos do interior, em especial
dos ovimbundos, contra a arrogância dos intelectuais e da pequena
burguesia de Luanda, agrupados em redor da grande família do MPLA.
Por isso mesmo, poderá, já sem a sombra assustadora de Savimbi,
conseguir despertar alguma simpatia entre outros sectores e outras etnias
de Angola. Os deputados da UNITA que não se deixaram domesticar
pelo regime, por vezes à custa de grandes sacrifícios, e
quase sempre recusando ofertas irrecusáveis, estão na linha
da frente. Abel Chivukuvuku, que durante alguns anos foi visto como um
homem dos americanos, é uma das figuras a seguir com atenção.
Parece-me igualmente importante saber se os partidos da oposição
democrática, os sindicatos independentes, as organizações
não governamentais, conseguirão aproveitar esta oportunidade
para se afirmarem, não apenas internamente mas também no
plano internacional, assegurando uma efectiva transição
de Angola para uma democracia plena.
Finalmente: conseguirá
o presidente José Eduardo dos Santos sobreviver à morte
do seu inimigo íntimo? Talvez seja como acreditar que um gémeo
siamês possa sobreviver à morte do irmão.
E terá
isso, afinal, alguma importância?
Jose Agualusa
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