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A "Paz Militar" em Angola: Um Paradoxo
(Breve
análise do ensaio de Carlos Pacheco)
Por:
Tadeu
Kahombo
Dado o evoluir dos acontecimentos
em Angola, e em função das perspectivas
que se traçam, nada melhor que trazermos aqui
o ensaio a "Paz Militar" em Angola de Carlos
Pacheco. Consideramos o ensaio de um grande valor
heurístico e que permite, da melhor forma,
esboçar alguns contornos sobre o futuro próximo
de Angola. Recorde-se que Carlos Pacheco é
um historiador angolano, a viver actualmente no Brasil
onde se dedica à investigação
histórica,sobretudo em aspectos que têm
a ver com as relações entre Angola e
Portugal colonial. Tem, para além disso, várias
obras publicadas.
O ensaísta Carlos
Pacheco começa por esboçar uma hipótese,
segundo a qual "as forças militares do
governo" conseguem, de facto "destruir ou
dominar a máquina de guerra da UNITA".
Em caso afirmativo, o ensaísta diz mais adiante
que se isso, de facto, acontecer, caberá perguntar
se esta derrota irá fazer com cessem "para
sempre as hostilidades". Sob o nosso ponto de
vista a resposta é negativa e nesse sentido
estamos plenamente de acordo com Carlos Pacheco quando,
mais adiante, afirma que a "história tem-nos
ensinado que a paz assente na "ponta das baionetas"
nunca é definitiva. Menos ainda se resultar
de uma guerra civil. Quem ganha procura preservar
todo o Poder para si, sentido-se satisfeito e aclamando
vitória como duradoura. O mesmo não
se passa com os vencidos que são obrigados
a aceitar uma paz que os humilha, por ser "contra
eles" ou "sobre eles".
Para fundamentar a sua
asserção, Carlos Pacheco recorre a Comte-Sponville
e a Espinosa. Apoia-se no primeiro para o parafrasear:
"não há derrota sem amanhã"
e no segundo, para fundamentara sua ideia segundo
a qual "Todas as guerras entre homens da mesma
nação mal resolvidas- que revertem em
Poder para uns e capitulação para outros"
são uma "guerra continuada".
Na verdade e estamos de
acordo quanto a isso, a guerra civil, é, pela
sua natureza, muito mais susceptível de criar
feridas difíceis de sarar numa nação
e os rancores podem transmitir-se de geração
em geração, comparativamente com uma
guerra em defesa da soberania. Como exemplo, o ensaísta
cita o caso da tragédia Irlandesa, cujas desavenças
duram desde o Século XVI até aos dias
de hoje.
Ao extrapolar estes aspectos
para o caso da guerra angolana, Pacheco antevê
um futuro cheio de "turbulências destrutivas".
Para ele a razão para que isso aconteça
é muito simples pelo facto de que o MPLA quer
"impor ao País sua paz,continuando com
o poder férreo" o que na perspectiva do
autor "não augura nada de bom para o futuro",
sobretudo para a "democracia e para o livre exercício
dos direitos humanos".Um segundo aspecto de igual
modo de capital importância na análise
de Pacheco,cinge-se a concepção demasiado
arraigada em Angola de que o conflito angolano se
reduz-se a duas personalidades, ou seja, entre José
Eduardo e Jonas Savimbi, que agora que está
morto,poderia, de uma vez por todas, fazer com que
o conflito chegasse ao fim.
De acordo com Carlos Pacheco
"os verdadeiros actores desta guerra não
são pessoas singulares e sim duas comunidades
culturais e étnicas distintas- os ovimbundu
e os grupos de Luanda-, os quais, apesar de viverem
uma união política aparente desde a
colonização,nunca entre elas se criou
um "sentimento nacional" comum. Carlos Pacheco
vai mais longe para tentar provar o seu ponto de vista,
alegando que entre essas duas comunidades "as
suas histórias, próximas e distantes
ao mesmo tempo, sempre se cruzaram mais na guerra
do que na paz ao sabor dessa permanência ambivalência
que,desde o segundo quartel do século XIX ,opôs
o litoral ao interior.
É opinião
de Pacheco que desses choques nasceram "profundas
incompatibilidades e ressentimentos mútuos".
Os ovimbundu sempre se sentiram na pele das maiores
vítimas da colonização. Luanda
sempre lhes suscitou as maiores reservas, em especial
as elites negras e mulatas a quem apelidavam "criações"
do colonialismo. Entretanto, com a independência
estas incompatibilidades, longe de se terem suavizado,
se agravaram.
E a solução
que Carlos Pacheco apresenta para se sair deste imbróglio
é o diálogo, lutando por uma "articulação
social, política e económica na estrutura
interna do Poder em Angola". Será está
que permitirá augurar "o nascimento de
um novo país e o nascimento de uma paz sólida."
Tomando em consideração
que o MPLA fez sempre tábua-raza a estes pressupostos
só nos resta aguardar pelo evoluir dos acontecimentos
em Angola. E em verdade se diga, seria catastrófico
se a guerra persistisse através de formas mais
subtis e veladas. Queira Deus que a luta entre essas
duas comunidades continue,mas no pleito eleitoral.
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