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Jonas Savimbi: O elevado preço da falta de
versatilidade.
Prestação
étnica: Medíocre.
Entre 1876 e 1893, reinava
no Bailundo Ekuikui II, substituto de Ekongo-Lyo-Hombo,
quando o reino entrou em grande alvoroço. Foi
numa altura em que, no planalto, os reinos iam caindo,
um a um, nas mãos dos colonialistas portugueses.
Os emissários dirigiram-se a Embala e disseram
a Ekuikui II que o reino estava em vias de ser atacado.
A notícia correu célere, deixando o
povo numa aflição e preocupações
extremas. E as razões não eram para
menos: todos se recordavam da prisão, feita
pelos portugueses, do rei Cingi I, um século
antes. Para não falar do reino do Viyé,
há uma centena de anos nas mãos dos
colonialistas.
Todos pensavam que Ekuikui
II fosse ordenar ao Kesongo (ministro da guerra) que
preparasse a defesa, mas fez precisamente o contrário.
Dirigiu-se ao Kalei (ministro da informação),
instruindo-o no sentido de informar a população
para incrementar a produção de milho,
borracha e o comércio de escravos. Na óptica
do soberano era a estratégia mais viável
para evitar que os portugueses metessem os pés
naquele local. E assim foi: a versatilidade de Ekuikui
II fez com que ele nunca provasse o sabor amargo da
derrota. O Bailundo viria apenas a ser tomado por
Teixeira da Silva no reinado de Numa II. Este, inicialmente,
não teve grandes dificuldades em conviver com
o capitão português que o havia derrotado.
No entanto, as coisas mudaram no dia em que um soldado
português, violou uma das suas mulheres. O rei
foi ter com o capitão, exigindo, como era hábito,
uma indemnização. Teixeira da Silva,
ao invés de atender as queixas do soberano
ovimbundu,prendeu-o e mandou-o para Benguela onde,
metido num barril, foi atirado ao mar alto,morrendo
assim.
Isto tudo para nos referirmos
ao grande espírito versátil de Ekuikui,
cujo exemplo deveria ser seguido pelo Dr. Jonas Savimbi.
Lamentavelmente, ele nunca se deu ao trabalho de comportar-se
assim. O Dr. Savimbi criou, a partir da independência,
grandes expectativas à etnia ovimbundu mas
que, com tempo, começaram a ser goradas. Hoje,
por mais que custe acreditar, converteu-se em refém
da estratégia esboçada pelos seus adversários,
sobretudo,ao afirmar, ingenuamente, que "à
mentalidade de guerra, responde-se com mentalidade
de guerra". O Dr. Jonas Savimbi, pese embora
o seu comportamento travesso, conforme referem alguns
antigos colegas seus do Instituto Cûrrie do
Dôndi começou, muito cedo, a mostrar
qualidades invulgares e invejáveis. De entre
estas destaca-se a qualidade de liderança pois
tinha, sem grande esforço,seguidores à
sua volta.
Homem dotado de uma persistência
incrível e de um espírito rebelde fora
do comum que levou certos observadores a avançarem
a hipótese de ele ser de origem Ambundu, mas
precisamente da região que faz fronteira com
a Andulo (hipótese defensável se existisse
uma psicologia étnica). A sua inteligência
ímpar, comprovou-se aquando da sua passagem
pela FNLA e pelo MPLA (onde notou não ter espaço).
Ao defender o lema, "se caíres num poço
não olhes pela mão de quem te quer salvar",
fez acrobacias políticas das mais surpreendentes
que não faria se tivesse passado por Havard,
Cambridge ou Oxford. É assim que após
a formação da UNITA, em Mangai (1966),
faz um pacto com o Diabo: os portugueses aceitariam
ignorar a sua presença e ele, em contrapartida,
forneceria informações sobre a movimentação
dos guerrilheiros do MPLA. No entanto, em 1973, após
ter expirado este "acordo" desenvolveu acções
espetaculares e relevantes, com uns poucos guerrilheiros
e sem apoio externo, no Móxico (região
do rio Lungué-Bungo), fazendo sentir a sua
presença, através da sabotagem dos carris
do Caminho-de-Ferro de Benguela, vector fundamental
da economia da Angola colonial.Logo após a
independência, e sempre na senda da teoria do
"poço", consegue sobreviver e sair
vitorioso durante a guerra fria, no momento em que
o MPLA ensinava nas escolas e nos quartéis
que era importante morrer-se pela construção
de uma sociedade sem classes e igualitária.
Finda a guerra fria é,
com toda a solenidade, recebido na Casa Branca,mérito
a que o José Eduardo ainda sonha. O fim da
guerra fria tinha criado as condições
sociais e psicológicas para um "rentrée",
espectacular do Dr. Savimbi, na vida política,
porquanto o fim da guerra fria significava, de igual
modo, o triunfo do modelo democrático ocidental
a que o MPLA sempre foi e ainda é avesso. Dramaticamente,
o advento da democracia veio mostrar que por detrás
da eloquência sem rival do Dr. Savimbi, da riqueza
da sua imaginação, do seu espírito
cheio de graça e da flexibilidade do raciocínio,
se escondia um outro ser que apenas nos recorda Dionísio1,
o antigo tirano de Siracusa. Estava aí um líder
do tipo possessivo na perspectiva psicanalítica
dos estilos de liderança: não tolerava
qualquer resistência e eliminava quem contrariava
a sua visão do mundo. Lamentavelmente, o Dr.
Jonas Savimbi, iniciou com aquilo que nós designamos
por "genocídio intra-étnico",
cujas consequências ainda estão longe
de serem avaliadas.
No entanto, a sua falta
de versatilidade pôs-se e manifesto,sobretudo,após
o período eleitoral. Convencido de que podia
mover montanhas sempre que quisesse, fez tábua-rasa
aos conselhos dos mais próximos; desentendeu-se
com a comunidade internacional e está em vias
de ficar praticamente só. Hoje, ao estilo de
Hitler em 1944, obstinou-se numa resistência
quase sem esperanças. É provável
que os Generais do governo do MPLA, não venham
ostentar o seu escalpe; mas também é
verdade é que o General Tempo é um dos
mais implacáveis. E se houvesse da parte desse
antigo guerrilheiro versatilidade as coisas seriam
diferentes, porque em verdade se diga quem tiver os
ovimbundu consigo nem sequer precisa de recorrer a
guerra para fazer política. Mas isso só
acontece quando, como Ekuikui II, se acredita mais
na etnia que a si próprio.
E um dia, que não
tarda, o Dr. Jonas Savimbi ao olhar-se ao espelho
reconhecerá, com grande mágoa, o que
o seu grande inimigo é ele próprio.
Tiago
Kahombo
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