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Imperialismo Ovimbundu: um falso problema

Por. João Kanjongo

O “Imperialismo ovimbundu” é, sem dúvida, a afirmação mais desconexa que se ouve em alguns certos círculos de intelectuais angolanos. À primeira vista nada parece mais estranho do que atribuir a um determinado grupo étnico, pretensões que se possam assumir como imperialistas. Tais ideias podem não estar plasmadas em livros, relatórios ou actas, mas ouvem-se de pessoas (quase sempre em ambientes restritos) muitas das quais ligadas a assistência humanitária e algumas ONGs, e cuja linha de fundo assenta na tese segundo a qual se está a processar, em determinadas zonas do País,o que se denomina por “imperialismo Ovimbundu”. Trata-se logicamente de uma força de expressão, pois ninguém está aqui a falar do imperialismo caracterizado por Lenine (1980) como o “capitalismo parasitário, moribundo, em estado de putrefacção” ou, se ainda o quisermos, como a “Fase superior do Capitalismo”. Sem dúvida que se fala dos processos migratórios de uma etnia de um lugar para o outro em consequência da qual a primeira ocupa o espaço físico, social e por vezes cultural da etnia encontrada.

Não há menor dúvida que um assunto assim posto nos pode levar a pensar e a concluir que o mesmo não possui relevância alguma, não passando, como tal, de um mero exercício teórico, pois quem conhece um pouco da história de Angola, sabe que a constituição dos Estados pré-coloniais, assentou basicamente em processos migratórios, coisa que já não se põe na fase actual. Porém, não se deve levantar uma muralha da China entre as formulações teóricas, muitas das quais de carácter ideológico, e as políticas sociais que surgem como consequência das mesmas.

É de referir que as várias concepções que se foram desenvolvendo na Antropologia foram adquirindo contornos políticos, influenciando inclusivamente várias práticas sociais. A título de exemplo, podemos citar, no caso de estudos africanos, os estudos de Ankerman (1905) onde apresentou o conceito de “círculo cultural”, introduzido na terminologia científica por Ratzel (1882). Os estudos de Ratzel cobram um interesse especial, relativamente aos aspectos que se prendem com a carácter determinista que ele dá ao poder dos criadores de gado nómadas que, na óptica deste autor, possuem o apanágio de criar Estados e subjugar a população agrícola. Todos esses estudos contribuíram, sem sombra de dúvidas, para o surgimento de várias concepções, tais como a de povo “camita” (Lepsios, Stuhlman).

O objectivo preponderante de todas estas teorias foi o de demonstrar que os grupos de criadores de gado, constituíram o “estado dominante” de grande parte dos Estados da África, cujas consequências nas políticas coloniais, e não só, são do conhecimento de qualquer estudioso. Desta maneira pode ver-s que qualquer ideia que se crie ao nível da Antropologia, não se apresenta assim tão descomprometida. O que, na verdade, nos espanta é o facto desses intelectuais angolanos ao pensarem assim fazem-nos recordar os postulados de Stuhlman, sobre as vagas de migrantes. Ou seja, para este autor a história da África está relacionada com migrações de certos povos mais desenvolvidos. E com eles vinham culturas agrícolas, instrumentos de trabalho, hábitos e instituições, mais desenvolvidas. Não é por mero acaso que Stuhlman nos fala das três últimas vagas de migrantes (os camitas, proto-camitas e os europeus).

O problema da migração dos Ovimbundu não só não pode ser visto nesta perspectiva sob pena de se amputar as possibilidades de se fazer uma análise mais cuidada do problema, o que poderá trazer consequências dramáticas para os Ovimbundu deslocados mais a sul, e mais no momento em que o fim da guerra porá na ordem do dia a questão do reassentamento das populações, como também pressupõe um equacionamento que exige a participação dos próprios actores.O que se passa em Angola é perfeitamente tão distinto quanto compreensível se tivermos em conta a situação de guerra que o País viveu desde a independência o que nos força analisar esta questão em dois níveis. Em primeiro lugar, a análise deve ser feita tomando em consideração o deslocamento forçado de certos sub-grupos Ovimbundu mais para sul, onde geralmente se os acusa do referido imperialismo, à procura de zonas mais seguras. Em segundo lugar, devemos avaliar a existência ou não de choques entre a etnia em análise e as encontradas. Ou seja, entre comunidades perfeitamente distintas do ponto de vista das suas actividades de subsistência:uma agrícola e outra pastoril ou agropastaril, para depois disso, tirarmos as devidas ilações que nos permitirão compreender os factores que concorrem para os desajustamentos estruturais que vivem actualmente as comunidades pastoris do Sul de Angola.

Quanto ao primeiro aspecto, e conforme já o dissemos, deve entender-se a movimentação dos Ovimbundu mais para o Sul como consequência da situação de guerra que o País viveu e não como uma intenção deliberada de dominar outros espaços ou, como aconteceu no passado, por questão meramente económicas e de rapina.Relativamente ao segundo aspecto, e de acordo com as fontes de que dispomos, não se pode falar propriamente da existência de conflitos ou choques entre os Ovimbundu e os Nyaneka-Humbi se bem que, verdade seja diga, o relacionamento entre os mesmo não tem sido assim tão pacífico. Dum lado, temos os Ovimbundu, mais voltada para a agricultura e que, graças a proliferação de igrejas evangélicas e as experiências acumuladas, vão ostentando uma maior capacidade de adaptação, gestão do seu dia-a-dia, e uma maior versatilidade no comércio dentro do capitalismo selvagem como,segundo dizem,grassa em Angola. Do outro lado, temos sociedades pastoris e agropastoris com poucas experiências a este nível e que se batem, de modo acérrimo, com problemas atinentes a falta de água e outros que advêm do estilo de vida imposto pela transumância. É compreensível que isto faça com que os Ovimbundu consigam, a curto prazo, manifestar uma certa predominância que pode, aparentemente, dar a impressão de possuírem uma superioridade organizacional, sem que isso signifique que dominem ou explorem esses grupos.

Se na verdade alguns conflitos se têm verificado isso tem sido devido mais a questões políticas, instigados sub-repticiamente, e na maior parte das vezes, pelo poder local ao conotar-se os Ovimbundu com a Unita, que propriamente por questões de poder derivados da ocupação das terras como, de acordo com as nossas fontes, se tem verificado em maior grau com os Muílas e, em menor grau, com os Ovatylenge, os Ovahumbi e os Hereros (Ndombe, Hakahona e os Dimba). Sem querermos aprofundar a problemática à volta das culturas pastoris e agropastoris, gostaríamos apenas de frisar que a desestruturação desses grupos não tem nada a ver com a presença dos Ovimbundu no seu espaço, mas sim com a política do do MPLA que pura e simplesmente os marginalizou. Mais grave ainda é o facto de que os Nyaneka- Humbi, provavelmente ainda sob o efeito da ressaca das guerras do Nano que decorreram em 1836, sempre foram os maiores apoiantes do MPLA.

À guisa de conclusão podemos afirmar que vistas assim as coisas não nos resta outra hipótese senão a de concordarmos com Morais e Correia (1993) que aponta como causas da crise que vivem as populações pastoris e agropastoris do Sul de Angola que, inclusivamente as põem em risco de extinção, os fracos apoios nos serviços de produção animal, a degradação da captação e retenção da água e a liberalização do comércio. Daí que, ao invés de se fazer os Ovimbundu de bode expiatório de alguns dos males que afectam esses grupos,dever-se-á como é óbvio,reforçar as capacidades locais,visando promover uma melhor adaptação dos Nyaneka-Humbi, a situação social e económica vigente em Angola. De modo que a política de reassentamento a definir para os Ovimbundu deslocados na região do sul de Angola não pode, de forma alguma, assentar na ideia de que os mesmos se apresentam como colonizadores,pelo que devem compulsivamente remetidos para os locais de origem. Este regresso deverá ser feito voluntariamente, quer através da livre opção de cada um, quer através da criação de pólos atractivos nos referidos locais; caso contrário, testemunhar-se-á um grande atropelo aos direitos humanos o que seria humanamente condenável.

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