Print

As feridas invisíveis da guerra
Por: Dr.Manuel
Utondosi (PhD em
Psiquiatria)
A guerra e a paz
enquanto dois processos sociais, que concorrem para
o mal (a guerra) e para o bem (a paz) do homem espelham
bem a complexidade da interacção dos
grupos sociais no processo da luta pelo poder. As
noções de guerra e paz assemelham-se
a uma face de duas moedas: numa das faces estampa-se
o carácter destrutivo e noutra cunha a necessária
reabilitação das sequelas sociais,económicas
e psicológicas, causadas por aquela.
A Paz é como a
ponte de um iceberg e, se a comparação
faz sentido, então noventa por cento dos casos
de cura das feridas ocasionadas pela guerra ficam
por sarar, mas nem por isso,as menos importantes de
se referir.O problema das sequelas de uma guerra é,
geralmente, relegado para o segundo plano. Os meios
de comunicação e as instâncias
internacionais prestam maior atenção
ao decurso de uma guerra (com o lucrativo negócio
de armas) mas, após o seu término, parecem
ignorar as formas (sucessos e retrocessos) como uma
determinada sociedade, que tenha passado por tal hecatombe,
se recompõe da mesma.
A razão de ser
desta pequena introdução advém
de duas experiências vividas pelo seu autor.
Em primeiro lugar, o facto de ter participado, há
dias, numa conferência sobre o distúrbio
de stress pós-traumático de guerra ocorrido
cá em Nova York, onde resido, e cuja tónica
dominante se pós nas lesões psicológicas,
geralmente, recalcadas no decurso da guerra, graças
à luta pela sobrevivência das pessoas,
mas, tal qual um vulcão, são susceptíveis
de explodir com o advento da Paz. Em segundo lugar,
o facto de o Tribunal Penal Internacional, formalizado
em Nova York, estatuir como crimes de guerra os genocídios
(assassinatos, torturas sistemáticas, estupro,escravidão,
etc.) e pouco ou quase nada dizer sobre os traumas
psicológicos que advêm de toda essa situação.A
fim de se seguir o fio do nosso pensamento começaremos
por uma incursão, quiçá complexa,
sobre a natureza do distúrbio de stress pós-traumático
que é uma desordem de ansiedade mais comum
em indivíduos que estiveram expostos à
guerra.
De acordo com o Manual
de Diagnóstico e Estatístico de Doenças
Mentais, DSM-IV (1997), o distúrbio de stress
pós-traumático(PTSD), é
uma desordem de ansiedade que consiste no desenvolvimento
de sintomas característicos, seguindo-se a
um acontecimento psicologicamente doloroso, que est
fora da faixa habitual da experiência.
Por exemplo, os soldados expostos a combates permanentes,
as populações vítimas do conflito
ou mesmo as mulheres, em situações normais,
mais por motivos de violência´, podem
desenvolver este distúrbio. Neste caso concreto,
as razões assentam, em primeiro lugar, na sua
vulnerabilidade como mulheres em contextos de países
em desenvolvimento, como o é o de Angola e,
em segundo lugar, por serem as mais vulneráveis
aos conflitos armados e ao stress provocado pela instabilidade
política, social e económica de um determinado
país,correndo,por isso, maiores riscos de se
exporem ao trauma. O conceito de distúrbio
de stress pós-traumático, como não
podia deixar de ser, tem a sua história, que
é descrita por Trimble,(1985), cujo surgimento
veio a preencher o grande vazio existente na teoria
e na prática psiquiátricas. O aspecto
fulcral desta teoria foi a postulação
de princípios segundo os quais o agente etiológico,
ou evento taumático, devia estar fora do indivíduo
e, como nos diz Kessler et al. (1996), não
seja inerente a uma fraqueza individual do sujeito.
A evolução
do conceito em análise também se põe
de manifesto nas várias edições
do Manual de Diagnóstico e Estatístico
de Doenças Mentais (DSM-III) que, numa primeira
fase, concebia como eventos traumáticos a guerra,
tortura, estupro, holocausto nazista, catástrofes
naturais (terramotos, furacões e erupções
vulcânicas), bem como catástrofes provocadas
pelo homem ( explosões nas indústrias,
acidentes aéreos e de viação),
diferenciado-os, claramente, de outros stressores
também dolorosos, e que fazem parte do nosso
dia-a-dia (divórcio, falha, rejeição,
doença grave, reveses financeiros e afins)
com transtornos de ajustamento, e não (PTSD).
Apesar disso, o distúrbio
de stress pós-traumátcio é um
diagnóstico relativamente novo que foi definido,
com maior precisão, pela primeira vez, na terceira
edição do Manual de Diagnóstico
e Estatístico de Doenças Mentais (DSM-III)
da Associação dos Psiquiatras Americanos
(APA) em 1980. Durante muito tempo, a maior parte
dos estudos preocupou-se em diagnosticar a presença
do distúrbio de stress pós- traumático
(PTSD) em veteranos de guerra no Vietname. Mais recentemente,
o interesse pelos efeitos de uma experiência
traumática sobre o comportamento humano estendeu-se
para outros lados do trauma como os causados por desastres
naturais, violência ou acidentes graves. A verdade
é que isso permitiu uma maior compreensão
dos factores envolvidos neste transtorno, bem como
a pouca consistência das diferentes hipóteses.
Acrescente-se, não obstante, que é um
dado adquirido (embora por explicar) o facto de se
ter reconhecido que nem todas as pessoas, mesmo passando
por uma experiência traumática, desenvolvem
esse transtorno (APA,1980).
O distúrbio de
stress pós-traumático (PTSD), é
peculiar entre outros diagnósticos psiquiátricos
devido à grande importância dada ao agente
etiológico, o stressor traumático. A
Associação dos Psiquiatras Americanos
(1980), caracteriza os seguintes critérios
de diagnóstico:
O critério A:
exposição a um evento catastrófico
- envolve a morte ou ameaça à integridade
física de si. A resposta objectiva do sobrevivente
é o medo intenso impotência ou horror.
O critério B:
evocação intrusiva ou revivência
do acontecimento- inclui sintomas que talvez sejam
os mais distintivos, prontamente identificáveis
do PTSD. Para indivíduos com PTSD, o evento
traumático permanece, algumas vezes, por décadas
ou toda a vida, como experiência psicológica
dominante que retém o poder de evocar pânico,
terror, pavor, apreensão, aflição
ou desespero, manifestados em fantasias diurnas, pesadelos
traumáticos e reconstituições
psicóticas conhecidas como flashbacks
do PTSD. Além disso, estímulos traumamiméticos
que desencadeiam evocações do evento
original, têm o poder de evocar imagens mentais,
respostas emocionais e reacções psicológicas
associadas ao trauma. O acontecimento traumático
é, persistentemente, revivido em ao menos um
dos sintomas acima expostos.
O critério C:
insensibilidade ou entorpecimento ou evitamento- consiste
em sintomas, que reflectem estratégias comportamentais,
cognitivas ou emocionais. Nesta linha de ideias os
pacientes com distúrbio de stress pós-traumático
(PTSD) procuram reduzir a probabilidade de se exporem
a estímulos traumamiméticos ou, se expostos,
minimizarão a intensidade da sua resposta psicológica.
É de referir que o comportamento de evitamento
assemelha-se à agorafobia, porque o indivíduo
com o distúrbio de stress pós- traumático,(PTSD)
tem medo de sair de casa, por temor de se confrontar
com lembranças do evento traumáticos.
O critério D:
Activação fisiológica (neuro-vegetativa)
ou hiperestimulação. Neste caso os sintomas
mais usuais são a insónia e irritabilidade
genéricos na ansiedade, sendo a hipervigilância
que algumas vezes se pode tornar tão intensa,
ao ponto de se assemelhar com a paranóia. O
critério E: de duração
específica. Quanto ao tempo os sintomas devem
persistir para que possam ser qualificados para o
diagnóstico de PTSD crónico ou tardio.
No DSM-III, a previsão é de seis meses,
enquanto que no DSM-III-R, é de um mês,
tendo aí permanecido no DSM-IV.
O novo critério
F refere-se ao facto de que o sobrevivente
deve experimentar um grande sofrimento social, ocupacional
ou outro em decorrência destes sintomas.O quadro
de Angola, fruto de uma guerra sem sentido, não
podia ser dos mais desoladores: grande parte dos militares
(da Unita ou do Governo), deve padecer terrivelmente
dessa doença, cujas consequências, a
nível social, são ainda imprevisíveis,
uma vez que a exposição ao combate é
uma experiência extremamente fatigante ou exaustiva
que pode, inclusivamente, afectar o funcionamento
psicomotor (Grinker e Spiegel,(1945). Isso para não
falar de uma grande franja populacional onde famílias
inteiras foram dizimadas e forçadas a viver
em condições desumanas, criando viúvas,
órfãos e uma pobreza generalizada.
Estes factos permitem-se
chegar as seguintes conclusões: (1) as acções
de recuperação dos efeitos da guerra
não deveriam ignorar o lado psicológico
das vítimas, sobretudo dos ex-soldados (acantonados
ou não), mulheres e crianças; (2) uma
eventual discussão sobre os crimes de guerra
deveria, de igual modo, tomar em consideração
os causadores de tamanho sofrimento às populações
que se prolongará durante toda a vida destas.A
Paz significa ausência de guerra, mas a sociedade
deveria fazer tudo por tudo para evitar que a guerra
de ontem se convertesse numa guerra pessoal, silenciosa
onde a vitima não teria uma arma sequer para
se defender do terrível flagelo que é
o PTSD.
Print

Top