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É possível uma educação
para a Paz?
(In Bulletin de
l´enseignement de la Société des
Nations, 1934,nº1,pp.17-23)
Por.
Evaristo Katata
O próprio facto
de ter de colocar uma tal questão é,
por si só, significativo. Após quinze
anos de actividade da Sociedade das Nações,
eis-nos forçados a ver, que os povos desconfiam
suficientemente uns dos outros para que o «nacionalismo»
do vizinho e as suas tendências, à autarcia
económica, impeçam qualquer um de sonhar
em organizar no seu território uma verdadeira
educação para a paz. A insegurança
é tal que falta neste domínio toda a
convicção. Mesmo aqueles que, por dever,
dão continuidade ao ensino da colaboração
internacional, não conseguem fazê-lo
sem restrição mental. Mais vale ter
a franqueza de proclamar a falência de uma tal
educação, acaba por se pensar, do que
colocar as novas gerações em presença
de uma contradição total entre o ideal
e as necessidades do real.
O que é mais grave
ainda é o conflito que existe a este respeito
entre os jovens e os homens que conheceram a guerra.
Enquanto estes últimos compreendem, pelo menos,
que se discutam estes problemas, a juventude parece
considerar a ideia de um ensino para a paz, como o
exemplo típico desses mitos efémeros
que opõem as gerações umas às
outras e que simbolizam o passado aos olhos dos que
vêm. Ora nada é mais funesto para o sucesso
de uma noção do que rodeá-la
de um halo simbólico, cujo valor se mantém,
necessariamente, ligado à mística e
às experiências de uma única geração.
Assim, é necessário
indagar para ver em que é que errámos
e se a causa está realmente perdida. Esta espécie
de brutalidade que apregoam os adversários
de uma educação para a paz apresenta,
com efeito, este lado simpático que ela emana
frequentemente, de uma vontade de clareza e de uma
decisão firme de evitar ficar-se pelas palavras.
Sigamos, pois, este exemplo e coloquemos a franqueza
acima das boas intenções.
A este respeito, uma verificação
parece impor-se-nos desde logo, e se ela é
desencorajante à primeira vista, conduz na
realidade a um certo optimismo: é que, mesmo
durante os anos em que o ensino da colaboração
internacional era aprovado em todo o lado, ele manteve-se
curiosamente superficial e estranho aos motivos psicológicos
reais da conduta. Procurou-se muito mais revestir
o espírito de cada um com o mesmo verniz de
mística internacional e preenchê-lo de
opiniões peremptórias sobre a Sociedade
das Nações, do que educar em profundidade
as tendências intelectuais e morais, susceptíveis
de conduzir a uma verdadeira colaboração.
Por outras palavras, simplificou-se a tarefa, ao ponto
de correr o risco de trabalhar para fins contrários
e não se quis ver a amplitude do problema pedagógico
e psicológico que suscita a educação
para a paz. A política da avestruz grassou
em pedagogia internacional, como noutros domínios.
Só agora que as dificuldades existem é
que é permitido discuti-las objectivamente.
Contudo, se é penoso
fazer tais certificações, elas são,
sublinhamo-lo, salutares. São elas que nos
fazem acreditar na possibilidade de uma educação
para a paz: uma tal educação não
falhou, uma vez que não empreendida seriamente.
Dediquemo-nos, pois, ao estudo das condições
psicológicas reais que determinam uma pedagogia
da colaboração internacional e descobriremos
o campo imenso de acção que resta por
explorar.
Sem querer de forma alguma
tomar posição, do ponto de vista da
estrutura política das diferentes nações,
é contudo legítimo mostrar, que nenhuma
das ideologias contemporâneas é, em princípio,
contraditória com a ideia da paz. Por um lado,
com efeito, os regimes democráticos assentam
em princípios, cuja extensão no internacional
é simples e compreensível para qualquer
um.
Por outro lado, os regimes
autoritários, por muito hostis que possam parecer,
por vezes, à noção de colaboração
pacífica, apresentam todavia duas características
comuns, cuja importância não convém
ignorar. Em primeiro lugar, eles têm necessidade
da paz para subsistir: o perigo, para eles, é
menos o inimigo exterior do que a revolução,
e todos sabem que o risco maior que a guerra é,
precisamente, a revolução interna. Em
segundo lugar, e consequente- mente, existe uma certa
solidariedade internacional dos regimes autoritários,
fundada na lógica das coisas (enquanto, segundo
a lógica formal, os nacionalismos deveriam
lutar uns contra os outros).
Desde logo, pode pensar-se
que uma educação para a paz real- mente
eficaz, deveria, em cada país e segundo o ponto
de vista de cada um, inserir-se na própria
educação nacional. Acabámos de
ver, que toda a ideologia nacional contém um
princípio de expansão: por muito diversas
que sejam, e mesmo contraditórias entre si,
essas ideologias tendem para uma certa universalidade.
Uma educação internacional que tivesse
em conta esta situação, não poderia
comportar outra introdução senão
um estudo sério feito por , cada um, sobre
a universalidade visada, as suas condições
de sucesso e as dificuldades com que se depara. O
principal problema da educação para
a paz é, com efeito, encontrar um interesse
real, que possa Impelir cada um a compreender os outros,
e em particular a compreender o adversário.
Ora a simples propaganda pacifista ou o simples ensino
dos objectivos e resultados da Sociedade das Nações
são ineficazes neste aspecto: sem contar que
uma tal predicação se confronta com
as dificuldades crescentes, que todo o homem dotado
do sentido da realidade não pode deixar de
sentir hoje, ela está bastante longe de poder
apresentar uma mística, de uma força
comparável ao vigor do sentimento nacional.
Pelo contrário, um estudo objectivo das possibilidades
de expansão dos princípios inerentes
à ideologia nacional faz apelo a um poderoso
~interesse: ele reclama que cada um, sem abandonar
o seu ponto de vista próprio, compreenda, sem
o subestimar, os pontos de vista do adversário,
sobretudo se estes constituem um obstáculo.
Afirmámos e repetimo-lo,
que a verdadeira educação para a :paz
deve consistir, não num simples ensino das
ideias pacifistas,mas numa adaptação
de todo o espírito às relações
internacionais. 'Ora, na medida em que consiga fazer
compreender a cada um que esta adaptação
é uma necessidade vital, uma condição
de expansão da ideologia particular a que se
está ligado e não uma coisa supérflua
ou uma fantasia, será possível edificar,
sobre os interesses legítimos do ponto de vista
nacional, toda uma moral e toda uma lógica
da educação internacional. Com efeito,
compreender os pontos de vista diferentes do seu,
penetrar na psicologia dos outros povos, em suma,
prever e explicar os motivos do estrangeiro, é
actualmente uma obrigação, mesmo para
o nacionalismo mais autêntico: sem essa adaptação,
o isolamento é fatal e todos sabemos onde conduz
o isolamento num mundo onde tudo está dependente
de tudo economicamente, politicamente e espiritual-
mente. Aí reside, pois, o ponto de partida:
o conhecimento dos outros como condição
de sobrevivência e de segurança nacionais
e como meio de expansão para a ideologia defendida.
Ora, este ponto de partida,
por muito interesseiro que seja - e isso é
uma garantia de sucesso para o ensino das relações
internacionais, implica toda uma disciplina do espírito,
que conduz precisamente à educação
de que falamos aqui. Na vida social de todos os dias,
a situação é a mesma. Os motivos
que nos impelem a compreender os outros, não
são necessariamente desinteressados. Não
é para os outros que realizamos, no fundo de
nós próprios, esse esforço de
adaptação; é no nosso interesse,
para nos sabermos orientar, para agir independentemente
dos outros, para os levar até às nossas
ideias e os fazer ceder aos nossos desejos, talvez
mesmo para nos protegermos e nos defendermos. Mas,
na medida em que nos sujeitamos às condições
necessárias para compreender os outros - isto
é, na medida em que nos afastamos das ideias
falsas e dos preconceitos pessoais con-seguimos simultaneamente
uma nova atitude de reciprocidade e libertamo-nos
do nosso egocentrismo inicial. Do mesmo modo, no plano
internacional, todo o esforço real de adaptação
psicológica, mesmo que proveniente de preocupações
interesseiras e puramente nacionais, conduz a uma
técnica de reciprocidade e de intercâmbio,
que beneficia, afinal de contas, a ideia internacional.
Não é preciso,
com efeito, situar o ideal de colaboração
pacífica em regiões demasiado etéreas.
O objectivo da educação internacional
é qualquer coisa de muito simples e é
precisamente essa simplicidade que torna tão
difícil a sua realização: é
bem mais fácil falar durante lições
inteiras sobre um tema teórico e artificial,
do que fazer penetrar no próprio espírito
do ensino uma única ideia elementar, quando
esta ideia tem a ver com uma atitude profunda e essencial
do espírito. Ora esse é precisamente
o caso da ideia internacional. Esta ideia não
tem nada de utópico, nem de negativo. Ela não
consiste em abolir as consciências nacionais
e sociais particulares: o objectivo da educação
internacional não é, em absoluto, constituir
uma espécie de consciência universal
que reprimiria es- sas consciências particulares.
Nem se trata tão-pouco de «apor»,
por assim dizer, a estas últimas, uma mentalidade
da mesma ordem que elas, mas que as dominaria a todas
na sua globalidade. Tudo isso não passa de
fantasia e se o ideal internacional consistisse em
querer uniformizar os pequenos franceses, os pequenos
suíços, os pequenos alemães,
os pequenos polacos, para deles fazer seres anónimos
e comuns, então perseguiria uma quimera funesta.
A ideia que defendemos
é bastante mais simples e bastante mais concreta:
não se trata de criar, em cada um, um método
de com- preensão e de reciprocidade. Que cada
um, sem abandonar o seu ponto de vista, e sem procurar
suprimir as crenças e os sentimentos, que fazem
dele um homem de carne e osso, ligado a uma porção
bem delimitada e bem viva do universo, aprenda a situar-se
entre os outros homens. Que cada um conserve, assim,
a sua perspectiva própria, como a única
que conhece do interior, mas que compreenda a existência
das outras perspectivas; que cada um compreenda, sobretudo,
que a verdade, em todas as coisas, não é
nunca definitiva, mas se elabora penosamente, graças
à própria coordenação
dessas perspectivas. É nesta renúncia
a todo o falso absoluto, é neste esforço
de relacionação, que consiste toda a
ideia internacional. Uma ideia extremamente simples,
como se vê, mas uma ideia difícil precisamente
devido a essa simplicidade. As tendências espontâneas
do nosso espírito impelem-nos, pelo contrário,
seja a edificar como absoluto o nosso egocentrismo
nacional, seja a sonhar com uma humanidade abstracta
e ideal. Estas duas atitudes têm resultado idêntico,
uma vez que o segundo absoluto não é,
no fundo, senão o primeiro, projectado nos
céus. Do que precisamos, pelo contrário,
é de uma atitude intelectual e moral nova,
feita de compreensão e de cooperação,
que sem sair do relativo atinja a objectividade pela
relacionação dos próprios pontos
de vista particulares.
Ora, se esse é
o objectivo da educação internacional,
todo o esforço real para compreender os outros
conduz, necessariamente, à aproximação.
'Iodo o ensino objectivo das relações
internacionais prepara os indivíduos para se
libertarem da ilusão egocêntrica em que
permanecem encerrados, enquanto não conhecem
o seu próprio meio, e para adquirirem essa
atitude de reciprocidade, que é o princípio
da colaboração pacífica.
(Extraído
da obra: Piaget, J. (1999). Pedagogia. Lisboa: Horizontes
Pedagógicos.)
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