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Jose
Agualusa
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Conseguirá
Eduardo dos Santos sobreviver?
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Terá sido possivelmente
o homem mais extraordinário que passou por
Angola - e o pior. Foi, como um ciclone, admirável
e pavoroso. Jonas Malheiro Savimbi viveu com fúria;
teria de morrer com fragor. Cumpriu-se, afinal, um
velho provérbio ovimbundo: faca de guerra,
morre na guerra. O filho do velho Lote, um humilde
funcionário dos Caminhos de Ferro de Benguela,
poderia ter utilizado a incrível energia com
que atravessou o seu tempo - uma força quase
mágica, que emanava dele como uma luz, e impressionava
quem quer que se aproximasse - para se transformar
num segundo Nelson Mandela. Preferiu ser Átila.
O desaparecimento de Jonas Savimbi
assinala, sem qualquer dúvida, uma nova era.
Em primeiro lugar o fim da guerra mais longa do nosso
tempo. Não é provável que os
generais sobreviventes, entre aqueles que continuam
nas matas, prossigam sozinhos o esforço inglório
de um combate que, no fundo, apenas servia, nestes
últimos anos, os interesses dos sectores mais
retrógrados do regime. Muitos deles hão
de respirar de alívio. Uns poucos generais
das tropas do governo, pelo contrário, talvez
lamentem tal desfecho: há negócios que
só prosperam em tempo de guerra. O governo
angolano vai ter muitas dificuldades, a partir de
agora, para justificar a má gestão do
país, a corrupção endémica,
a ausência de democracia. Jonas Savimbi tinha
as costas largas. Tudo de mal que acontecia em Angola,
das multidões ululantes de mutilados aos cortes
de água, passando pelos surtos de paludismo,
lhe podia ser atribuído. E a quem protestasse
era fácil colar um rótulo. Um rótulo
terrível - savimbista.
Os próximos dias vão
ser perigosos. Por um lado existe o risco, ainda que
muito remoto, de uma explosão em Luanda, de
júbilo ou de ira, ou de ambas as coisas, pois
que tendo a UNITA deixado de ser uma ameaça
não é de todo improvável que
a massa de desesperados que se acumulam na capital
de Angola se volte contra os seus senhores. Por outro
lado os grupos dos guerrilheiros do galo negro dispersos
pelo país, agora sem cabeça - ou seja,
de cabeça perdida - poderão tentar acções
suicidas mais ou menos espectaculares.
Passada essa fase importa saber quem
dentro da UNITA continuará o movimento. Um
movimento, acrescente-se, historicamente importante,
que representou, e continua a representar uma revolta
dos povos do interior, em especial dos ovimbundos,
contra a arrogância dos intelectuais e da pequena
burguesia de Luanda, agrupados em redor da grande
família do MPLA. Por isso mesmo, poderá,
já sem a sombra assustadora de Savimbi, conseguir
despertar alguma simpatia entre outros sectores e
outras etnias de Angola. Os deputados da UNITA que
não se deixaram domesticar pelo regime, por
vezes à custa de grandes sacrifícios,
e quase sempre recusando ofertas irrecusáveis,
estão na linha da frente. Abel Chivukuvuku,
que durante alguns anos foi visto como um homem dos
americanos, é uma das figuras a seguir com
atenção. Parece-me igualmente importante
saber se os partidos da oposição democrática,
os sindicatos independentes, as organizações
não governamentais, conseguirão aproveitar
esta oportunidade para se afirmarem, não apenas
internamente mas também no plano internacional,
assegurando uma efectiva transição de
Angola para uma democracia plena.
Finalmente: conseguirá o presidente
José Eduardo dos Santos sobreviver à
morte do seu inimigo íntimo? Talvez seja como
acreditar que um gémeo siamês possa sobreviver
à morte do irmão.
E terá isso, afinal,
alguma importância?
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